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FAMÍLIA







Vestem a pele dos super-heróis, conversam com fadas ou vivem em mundos de sonho. Para onde é que imaginário infantil leva as crianças?

Por mariza figueiredo

Quando a educadora pediu que Inês, de quatro anos, desenhasse a sua família, ela pôs no papel o pai, a mãe e a si própria. A educadora perguntou-lhe sobre os meios-irmãos. Inês ignorou-a. A educadora perguntou novamentee, perante a insistência, Inês incluiu no desenho uma centopeia “do jardim lá de casa”, explicou, arrumando a questão de uma vez por todas. Para os pais, isso seria mais uma daquelas invenções fantasiosas da filha e das crianças em geral. A educadora, sem dar um tom de exagerada preocupação, chamou a atenção dos pais para o facto de poder haver algo que estivesse a preocupar Inês, pois as saídas criativas andavam a aparecer com mais frequência do que o esperado. Estes nunca tinham parado para pensar sobre o que significava este recurso imaginativo da filha. Acabaram por descobrir que por detrás dos desenhos, histórias e brincadeiras se escondem muitos dos conflitos e ansiedades das crianças.

Magia, imaginação e fantasia fazem parte do mundo da criança. Este é um dado que nós, adultos, temos como adquirido. Uns acreditam que quanto mais, melhor. Outros acham que é tudo um disparate. E há ainda os que preferem que esta fantasia seja pintada apenas em tons cor-de-rosa, sem agressividade, violência, morte ou outros aspectos duros que fazem parte da vida. Fomos crianças também, mas ignoramos o que reside neste imaginário. E quando os nossos filhos insistem que são os todo-poderosos Power Rangers, quando estão apavorados com os monstros “que se escondem” debaixo da cama ou falam sozinhos com amigos imaginários, muitas vezes ficamos sem acção. O que é que tudo isso significa?

O papel dos pais e educadores
  São aqueles que ajudam a orientar a imaginação da criança
Devem estimulá-la através de brincadeiras, jogos e histórias,
incentivando a iniciativa e elogiando as conquistas
É essencial dar-lhe espaço para descobrir coisas, para se abstrair, entrar na fantasia e encontrar resposta para certos conflitos internos
A brincadeira imaginativa deve ser respeitada, sem que seja invadida ou travada, mesmo que o adulto não perceba o que é que a criança está a resolver naquele momento
É por volta dos quatro, cinco anos que verificamos de uma forma mais intensa a presença da imaginação e da fantasia no universo das crianças. Da mesma forma como contam que a avó lhes deu um rebuçado, referem-se a gatos de múltiplas patas ou meias que falam. E vivem estas histórias com a mesma intensidade com que vivem qualquer aspecto do seu mundo concreto. Imaginação e realidade entrelaçam-se sem uma fronteira bem definida. E só à medida que a criança vai crescendo e amadurecendo estes dois planos se separam.

A imaginação está presente na vida da criança desde os tempos mais remotos da sua existência, desde quando esta é imaginada pela mãe ainda grávida. “A capacidade de imaginar só é possível quando o fomos também. Quando a mãe pensa no bebé, já está a imaginar alguém”, comenta Sofia Ambrósio, psicóloga clínica. A partir deste momento e ao longo dos primeiros meses de vida da criança, estabelece-se entre a mãe e o bebé um espaço imaginário. “Desta dinâmica, desta relação, surge a capacidade de imaginar”, afirma a psicóloga. E se esta relação de dependência não for bem estabelecida pode vir a reflectir-se na forma como a criança resolve os seus problemas mais básicos enquanto se desenvolve.

A imaginação pode ser tranquilizadora, pois a qualquer altura ajuda a preencher espaços vazios. À medida que o bebé cresce, quando não está na presença da mãe, vai imaginá-la. “Isto acontece porque houve uma boa relação de dependência e um espaço bem construído ao longo dos primeiros tempos”, sublinha Sofia Ambrósio. E neste sentido, “na ausência temporária da mãe, a criança pode imaginá-la, encontrando uma saída para superar a frustração gerada por esta falta”.

“As brincadeiras e a imaginação são necessárias para [a criança] aprender quais os seus limites e para se compreender a si própria como pessoa”, escreveu T. Berry Brazelton, o famoso pediatra norte-americano, na sua obra O Grande Livro da Criança (Editorial Presença). E acrescenta: “No seu mundo imaginário, pode explorar as ideias que desenvolve. Sente-se em segurança. (...) A imaginação e o uso do pensamento fantasioso ajudam a criança a explorar o seu novo mundo sem perigos de cair em exageros. (...) A sua imaginação activa dá--lhe oportunidade de ser um monstro, um animal agressivo, de ser a mãe ou o pai que adora – tudo isso num sonho de fantasia.”

Quando brinca, traduz em comportamento o que lhe vai na mente e na alma. “E isto ajuda-a a desenvolver a capacidade de pensamento, trabalha a sua inteligência”, observa Sofia Ambrósio. Mas não é só isso. “Através da brincadeira, do jogo, do desenho, ou de qualquer tipo de representação lúdica, vai representar todas as relações vividas, sentidas e aprendidas em família. Representa vários modelos sociais e vai aprendendo com as coisas boas e más que vive no dia-a-dia. Com este jogo de identificações vai construindo o seu caminho”, explica a psicóloga.

Mas os pais assustam-se quando ouvem: “Eu sou o Homem-Aranha e mato todos os maus.” A violência, a agressividade, a morte parecem vetadas pelos adultos ao universo infantil. Isto não deve ser fonte de preocupação. “Brincar às guerras vacina, provavelmente, contra a guerra. Viver a guerra dentro de si, sem a ‘brincar’, origina provavelmente as ‘pessoas da guerra’”, podemos ler em Vida, Pensamento e Obra de João dos Santos (Livros Horizonte), médico e psicanalista infantil. “Porque quando a criança faz jogos agressivos, sejam jogos de luta, ou jogos simbólicos, ou histórias que conta, ou desenhos que faz, está a libertar-se da sua agressividade, está a tentar simbolizá-la, a fazer dela outra coisa”, afirmou João dos Santos em Se Não Sabe Porque é Que Pergunta (Assírio & Alvim).

Ao contar histórias às crianças, os adultos, muitas vezes, omitem certas passagens ou dão uma volta ao texto para o pôr mais suave, ao introduzir o politicamente correcto porque, afinal, são crianças e não precisam de coisas más. “Muitas vezes os pais têm a tendência a não querer confrontar as crianças com aspectos difíceis da vida. Estas passagens encontradas em muitas das histórias tradicionais dão-lhes as estratégias para lidar com alguns dos seus temores, ajudam-nas a resolver coisas que as preocupam. Não se deve omiti-las”, comenta a educadora de infância Adelaide Almeida, do Externato O Nosso Jardim, enquanto recorda a maneira como os seus alunos vibram quando, por exemplo, na história do Capuchinho Vermelho, o lobo é castigado.

Histórias e imaginação conjugam-se bem e são um excelente estímulo à fantasia infantil. Adelaide Almeida acredita que “as histórias proporcionam situações de efabulação e mexem com o sentimento da criança, mas também podem dar-lhes soluções. Nestas idades há dificuldade em falar de sentimentos. E para isso também a fantasia das histórias ajuda”. Entre os quatro e os cinco anos e até mais tarde, as crianças têm muita curiosidade, querem saber tudo. “Há muitos livros que dão explicações a casos concretos que podem ser também interessantes”, acrescenta.

“O maravilhoso dos contos tradicionais, se tiver um bom e afectuoso nar-rador, tem tudo o que é preciso para estimular o sonho, a fantasia, a sabedoria e o saber da criança e do homem. O maravilhoso dos contos vem da fantasia antiga e actual, que serviu desde sempre ao homem para descobrir pensando. O conto é o ponto de confluência de mitos que, desde a origem, serviram ao homem para criar um património”, lê-se no livro Vida, Pensamento e Obra de João dos Santos.
Jogar com a imaginação
As ferramentas são mais que muitas. E estão ao alcance de qualquer um.
Plasticina, barro e materiais que possam ser manipulados de forma criativa
l Tintas, lápis de cor e muitas folhas de papel em branco
Elementos caseiros simples para construir brinquedos e bonecos: caixas, garrafas de plástico, folhas, pedras, pedaços de madeira, pão velho
Um bom banho com ou sem espuma, com brinquedos e outros acessórios
Histórias e contos contados com empenho
l Jogos de interpretação com bonecos ou encarnando personagens
Filmes e desenhos animados escolhidos e vistos na companhia dos pais

A imaginação está directamente ligada à nossa capacidade de pensar. Todos fazemos este exercício quando resolvemos os nossos problemas diários. Dos mais complexos aos mais simples. E aprendemos a fazer isto durante a infância. Para João dos Santos, “não há seres humanos inteligentes, sem que um mínimo de simbolismo e fantasia tenha aflorado o espírito da criança. A imaginação é a base da formação da nossa inteligência. Não há limite preciso entre a vida afectiva e a vida intelectual, porque tudo o que afectivamente nos dá segurança dá-nos também conhecimento (ou cognição) e tudo o que nos dá conhecimentos dá--nos, ao mesmo tempo, segurança; os dois aspectos fundamentais da vida mental são inseparáveis a todos os níveis e desde a primeira infância”.

“A capacidade de imaginar e criar é o que faz a diferença entre cada indivíduo perante um material ou uma situação. E só um adulto criativo consegue usar a informação que tem – na maneira que a selecciona e aplica – de forma a fazer sentido”, comenta a educadora Adelaide Almeida.

Mas da mesma forma se chama a atenção para os extremos: a sua falta ou o excesso.

“Quando enfrenta um impasse, uma criança que usa a imaginação dá a volta e consegue encontrar uma alternativa, não fica sem saída. O imaginário permite novas relações, novas aprendizagens”, explica Sofia Ambrósio. “A falta deste recurso leva a que a criança bloqueie e tenha dificuldade em suportar uma nova realidade, em resolver o impasse em que se encontra. Pensa: não sei o que fazer, não me consigo imaginar, não sei como sair daqui”, revela a psicóloga.

E a falta de imaginação não é sinónimo de apatia. “Uma criança muito activa, se calhar, não está a conseguir pensar”, destaca Sofia Ambrósio. “As crianças mal comportadas são as que agem em vez de pensar. Mas o que acontece é que muitas vezes eles não sabem o que é pensar – porque pensar é, não só resolver operações, mas também imaginar. A imaginação é invadida por fantasmas que nem sempre se podem enfrentar sem uma instrumentação mental adequada e o apoio de educadores ou dum ambiente que dêem segurança. Se não pode dar seguimento a certas fantasias ligadas à depressão, angústia, carência e revolta, age”, afirmou João dos Santos.
O reverso da medalha também implica atenção. “A imaginação deve ser posta ao serviço das relações da criança, seja dentro da família ou na escola, e não como fuga a estas. Quando a criança imagina e não regressa à realidade, é porque esta não é gratificante e nem sequer deseja senti-la”, explica Sofia Ambrósio. Nestes casos, a psicóloga aconselha que seja “puxada para a realidade”, não de forma fria e cortante, mas trazen
do-a novamente para a relação. “Poder-se--ia dizer, por exemplo, ‘seria bom ser um super-herói, mas não somos. Se calhar temos de ficar tristes, chorar... mas estou aqui ao teu lado’”, ilustra.

À medida que evolui, o real vai-se impondo na vida da criança. Esta tem cada vez mais uma noção de tempo, espaço e da sua rotina diária. “A temporalidade é importante, organiza-a no real”, explica. E o importante é que à medida que vai crescendo vai fazendo a separação entre realidade e fantasia.

A própria criança começa a fazer perguntas para assegurar o que é real e o que não é. E cabe-nos a nós, adultos, irmos dando as pistas à medida do seu desenvolvimento, sem temer que elas cresçam.

Por volta dos seis anos percebem a separação entre fantasia e realidade e conseguem tirar partido das duas. E isto, se nos permitirmos, vamos fazendo até ao fim da vida.














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