Pornografia: de mulher para mulher

Acha os filmes pornográficos grotescos, inestéticos e muito pouco excitantes? Não é a única! Mas este cenário está a mudar. Principalmente pelas mãos de jovens realizadoras. Prepare-se!
Por Mariza Figueiredo

Pornografia

Acha os filmes pornográficos grotescos, inestéticos e muito pouco excitantes? Não é a única! Mas este cenário está a mudar. Principalmente pelas mãos de jovens realizadoras. Prepare-se!

Lolitas, enfermeiras e secretárias atrevidas ou, pura e simplesmente, exuberantes ninfomaníacas. Polícias, mafiosos e outros homens a tresandar a testosterona. Imagens cruas e explícitas dos órgãos sexuais e enredos pobres, quase infantis, a desenrolar-se em cenários inexistentes ou no mínimo de mau gosto. Isto excita-a? É provável que não. Estes são alguns dos estereótipos mais frequentes da produção pornográfica tradicional e pouco dizem a grande parte das mulheres. A verdade é que até aqui a pornografia sempre pertenceu ao universo masculino. Feita por homens e a pensar, sobretudo, nos homens.

A nossa herança cultural, de vergonha e de culpa, proibitiva do prazer, não dava espaço para que surgisse interesse por parte das mulheres neste tipo de material. Socializadas de forma mais repressiva, sempre impedidas de explorar a sua sexualidade e de trilhar um caminho de descoberta do prazer sexual, o recurso à pornografia esteve sempre fora de questão para o universo feminino.

Por outro lado, uma visão mais recente e puramente feminista sempre repudiou este tipo de produto. Considerava-o misógino, acusando-o de degradar a imagem das mulheres e de as explorar.

Ultrapassando qualquer destas barreiras, a atração à pornografia por parte das mulheres nunca foi grande. “O erotismo feminino não passa muito pelo visual. Os estímulos visuais são muito mais um padrão masculino”, comenta a sexóloga Ana Alexandra Carvalheira, investigadora do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) e presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC). “A produção de pornografia como até agora conhecemos é pouco interessante para o erotismo das mulheres. A falta de uma narrativa consistente, a seleção de imagens explícitas, às vezes brutalmente explícitas, que não deixam nenhum espaço para a imaginação, e a força da imagem – pénis, órgãos sexuais sem pelo, para se ver o tamanho e todo o resto –, tudo isso é pouco interessante para o erotismo feminino. Este precisa da elaboração na forma da narrativa, da idealização, da idealização do outro, da cena”, explica a especialista.

Mas uma nova tendência está a surgir. As novas tecnologias têm representado uma verdadeira ponte a conduzir um número cada vez maior de mulheres aos conteúdos pornográficos. Um estudo realizado recentemente pela sexóloga Ana Alexandra Carvalheira e pela psicóloga Maria João Gaspar, intitulado O consumo de pornografia na Internet numa amostra de mulheres Portuguesas, revela um aumento crescente no consumo de pornografia pelas mulheres. Fazem-no através da Internet, um meio fácil, rápido, económico, descomprometido e que permite o anonimato total. “Elas não têm de ir ao clube de vídeo, àquela secção escondida, e pegar numa cassete. Basta um clique”, comenta a sexóloga.

De acordo com este estudo, provavelmente o único centrado no universo feminino português, 56,9 por cento das mulheres inquiridas já entrou em sites pornográficos e 7 por cento gasta mais de 6 horas por semana nesta atividade. Porque o fazem? 29,6 por cento responde ser por entretenimento; 38,3 por cento assume procurar algo que as excite sexualmente; e 47,8 por cento afirma fazê-lo apenas por curiosidade. “Ainda que refiram ser uma mera curiosidade, esta é uma curiosidade direcionada, um interesse pela excitação sexual. Um interesse que não é muito assumido pelas mulheres”, sublinha em entrevista Ana Alexandra Carvalheira.

A nível de conteúdo, 69,6 por cento procura imagens de relações entre homens e mulheres, enquanto 28,7 por cento procura encenações de fantasias; 22,6 filmes pornográficos hardcore; 21,7 imagens de homens; e 19,1 filmes pornográficos softcore, entre outros.

O estudo foi feito a partir de uma amostra de pouco mais de 200 mulheres em Portugal. E refira-se que o universo aqui focado é o do consumo online – provavelmente o principal, ou mesmo único meio de consumo de pornografia pelas mulheres portuguesas – e isso limita o grupo de estudo a mulheres com uma média de idades baixa, em que a maior frequência de acesso se verifica na faixa entre os 21 e os 30 anos. É a população mais jovem que usufrui do acesso à Internet para atividades não laborais e são os indivíduos com um maior nível de educação que têm maior facilidade em usar novas tecnologias. Mesmo não sendo uma amostragem representativa do total das mulheres em Portugal, esta investigação permite-nos levantar o véu sobre o tema tão pouco falado e estudado.

Etiquetas: Sexo, Pornografia, Mulheres, Filmes, Estudo
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